A América Latina não está esperando permissão para adotar Web3. Enquanto reguladores nos EUA e Europa debatem frameworks, milhões de pessoas em toda a LATAM já estão usando ferramentas baseadas em blockchain para resolver problemas que as finanças tradicionais não podem ou não querem abordar. Esta não é adoção teórica impulsionada por especulação -- é adoção prática impulsionada por necessidade. E essa distinção faz toda a diferença.
Como alguém que passou mais de uma década construindo empresas de tecnologia nesta região, observei a narrativa Web3 evoluir da curiosidade sobre Bitcoin em 2015 para um ecossistema maduro e multicamadas em 2024. Na Xcapit, construímos uma carteira de autocustódia que alcançou mais de 4 milhões de usuários em 167 países, com uma parcela desproporcional vindo da América Latina. Fizemos parceria com a UNICEF para implementar ferramentas financeiras baseadas em blockchain para populações mal atendidas. Não estamos observando este mercado de fora -- estamos construindo nele todos os dias. Aqui está o que estamos realmente vendo no terreno.
LATAM em Números: Uma Região Que Não Pode Ser Ignorada
Chainalysis classifica consistentemente múltiplos países latino-americanos entre os 20 principais globalmente para adoção de criptomoedas. Em 2023, a região recebeu um estimado de $562 bilhões em valor on-chain -- um número que continuou a crescer em 2024. Somente o Brasil representou cerca de $150 bilhões. A Argentina, apesar de seu PIB menor, bate bem acima de seu peso em adoção per capita, particularmente no uso de stablecoins.
Mas o volume bruto de transações só conta parte da história. O que torna a LATAM distintiva é a composição dessa atividade. Ao contrário de mercados impulsionados principalmente por trading e especulação, uma parcela significativa da atividade Web3 aqui é utilitária -- pessoas usando stablecoins como contas de poupança, trabalhadores recebendo remessas através de trilhos cripto, pequenas empresas liquidando faturas transfronteiriças sem bancos correspondentes tradicionais. Essa adoção utilitária cria uma base mais durável do que ciclos especulativos, porque os usuários não param de precisar economizar, enviar dinheiro ou pagar fornecedores quando os preços de tokens caem.
Análise por País: Problemas Diferentes, Soluções Diferentes
Argentina: A Capital das Stablecoins do Mundo
O relacionamento da Argentina com cripto é diferente do de qualquer outro país, porque as condições econômicas da Argentina são diferentes das de qualquer outro país. A inflação anual excedeu 200% no início de 2024. Controles de capital restringem o acesso a moeda estrangeira através de canais oficiais. A diferença entre a taxa de câmbio oficial e a taxa paralela ("dólar blue") cria pressão de arbitragem constante. Neste ambiente, stablecoins não são um ativo especulativo -- são uma ferramenta de sobrevivência.
Os argentinos detêm um estimado de $50 bilhões em dólares americanos fora do sistema bancário. Stablecoins como USDC e USDT oferecem uma alternativa digital com vantagens claras: acessíveis 24/7, sem necessidade de conta bancária, transferências globais instantâneas e imunidade a controles cambiais. Volumes mensais de transações de stablecoins na Argentina classificam consistentemente entre os mais altos per capita globalmente.
No front regulatório, a administração Milei sinalizou uma postura mais aberta em relação a cripto do que governos anteriores. A eliminação do "cepo" (controles de capital) continua sendo um objetivo declarado, com discussão crescente em torno de um framework formal de ativos digitais. O que está claro é que a adoção superou a regulamentação -- milhões de argentinos já usam stablecoins diariamente, e qualquer framework futuro precisará acomodar essa realidade.
Brasil: Construindo Infraestrutura Institucional
A abordagem do Brasil ao Web3 é a mais institucionalmente madura da região. O Banco Central do Brasil está desenvolvendo ativamente o Drex, uma moeda digital de banco central (CBDC) atacadista construída em Hyperledger Besu -- um blockchain Ethereum compatível com permissão. Drex não é uma ferramenta de pagamento de varejo; é infraestrutura para liquidação de ativos tokenizados, dinheiro programável e coordenação interbancária.
A importância do Drex não pode ser exagerada. Quando um banco central constrói em infraestrutura blockchain, valida a pilha de tecnologia para todo o sistema financeiro. Programas piloto rodando durante 2024 envolvem grandes bancos brasileiros testando títulos do governo tokenizados, imóveis e ativos de financiamento comercial. Se o Drex tiver sucesso em escala, cria os trilhos sobre os quais aplicações Web3 do setor privado podem construir com confiança regulatória.
O Brasil também tem a vantagem do PIX, seu sistema de pagamento instantâneo que processa mais de 3 bilhões de transações por mês. PIX demonstrou que os brasileiros adotam nova tecnologia financeira rapidamente quando ela resolve um problema real. A convergência da ubiquidade do PIX, infraestrutura institucional do Drex e um framework regulatório que já abrange exchanges de cripto (Lei 14.478) posiciona o Brasil como o mercado LATAM mais provável para adoção Web3 de grau institucional.
Colômbia: Remessas e Inclusão Financeira
A Colômbia recebe aproximadamente $10 bilhões em remessas anuais, predominantemente dos Estados Unidos. Corredores tradicionais de remessa cobram 5-8% em taxas e levam 1-3 dias úteis. Serviços de remessa baseados em cripto comprimiram isso para menos de 1% e liquidação quase instantânea, e estão ganhando terreno rapidamente.
A abordagem regulatória sandbox da Colômbia criou espaço para inovação sem a incerteza que assola mercados menos estruturados. Bitso, Binance e players locais estabeleceram operações significativas, e volumes de trading peer-to-peer de stablecoins estão entre os mais altos da região. Com 45% da população sem acesso a bancos, ferramentas Web3 que requerem apenas um smartphone podem alcançar pessoas que os bancos tradicionais nunca alcançarão.
México: O Gigante Adormecido
O México é o maior mercado de remessas na LATAM, recebendo mais de $63 bilhões em 2023 -- principalmente dos Estados Unidos. Este único caso de uso sozinho representa um enorme mercado endereçável para trilhos de pagamento baseados em blockchain. Bitso processa uma parcela significativa de remessas cripto EUA-México, demonstrando que o product-market fit existe.
No entanto, a Lei FinTech do México restringe ativos cripto de serem usados como moeda legal e limita como instituições financeiras tradicionais podem interagir com ativos digitais, criando um teto regulatório que desacelerou a adoção institucional em comparação com o Brasil. A oportunidade continua enorme -- a proximidade do México com o mercado dos EUA, grande população da diáspora e PIB de $1,3 trilhão tornam inevitável que a adoção Web3 se acelere. A questão é quando, não se.
Os Casos de Uso Que Estão Realmente Funcionando
Além da visão em nível de país, vale examinar as aplicações específicas que estão impulsionando a adoção na região. Estes não são casos de uso hipotéticos -- são produtos ao vivo e funcionando com usuários reais.
Economia e Acesso ao Dólar com Stablecoins
Em economias com inflação crônica, a capacidade de economizar em uma moeda estável não é um luxo -- é uma necessidade fundamental. Stablecoins fornecem poupança denominada em dólares para qualquer pessoa com um smartphone, sem exigir conta bancária, saldo mínimo ou verificação de identidade em uma instituição estrangeira. Na Argentina, vimos isso em primeira mão com nossa carteira: os usuários não estavam negociando cripto para lucro. Estavam convertendo seus salários para USDC em horas de recebê-los, tratando stablecoins como uma conta de poupança digital. Esse padrão se replica em toda a Venezuela, Colômbia e cada vez mais no Brasil também.
Remessas Transfronteiriças
Remessas são o caso de uso cripto mais maduro na LATAM. A economia é direta: um trabalhador em Miami enviando $500 para a família em Bogotá paga $25-40 através da Western Union. Através de trilhos cripto, a mesma transferência custa $1-5 e liquida em minutos em vez de dias. À medida que a liquidez de stablecoins se aprofunda e on/off ramps melhoram, a vantagem de custo só cresce. O Banco Mundial estima que reduzir taxas de remessa para a meta SDG de 3% colocaria $12 bilhões adicionais por ano nos bolsos de famílias migrantes em todo o mundo.
Empréstimos e Rendimento DeFi
Protocolos de empréstimo descentralizados oferecem aos usuários LATAM acesso a rendimento sobre suas economias e crédito contra seus ativos digitais -- serviços que bancos tradicionais na região ou não oferecem ou restringem a clientes de alto patrimônio líquido. Na Xcapit, integramos estratégias de rendimento DeFi diretamente em nossa carteira, permitindo que os usuários ganhassem retornos em depósitos de stablecoins através de protocolos curados e avaliados quanto ao risco. A demanda foi significativa: usuários que não podiam acessar uma conta poupança tradicional com taxas de juros competitivas encontraram protocolos DeFi oferecendo 4-8% APY em stablecoins denominadas em dólar -- dramaticamente melhor do que os retornos reais próximos de zero disponíveis através da maioria dos bancos LATAM.
Imóveis Tokenizados e Ativos do Mundo Real
Imóveis tokenizados estão ganhando força em toda a LATAM, particularmente no Brasil e Argentina. Propriedade fracionária através de tokens blockchain reduz a barreira de entrada de dezenas de milhares de dólares para centenas, permite liquidez em uma classe de ativos tradicionalmente ilíquida e fornece registros transparentes e on-chain de propriedade e distribuição de renda. Plataformas brasileiras já estão tokenizando imóveis comerciais, e o framework de regulamentação de tokens emergente da Argentina está criando caminhos para tokenização de ativos do mundo real compatível.
Por Que a LATAM É Estruturalmente Diferente
Para entender por que a adoção Web3 na LATAM parece diferente da adoção nos EUA ou Europa, você precisa entender as condições estruturais que tornam as soluções blockchain mais valiosas aqui do que em mercados com moedas estáveis e infraestrutura bancária profunda.
- Inflação crônica: Quando sua moeda perde 10-20% de seu valor por mês, preservar o poder de compra é a principal preocupação financeira. Stablecoins fornecem uma solução acessível que produtos bancários tradicionais não correspondem.
- Grandes populações sem acesso a bancos: Aproximadamente 200 milhões de adultos na LATAM carecem de acesso a serviços bancários básicos. Ferramentas Web3 que requerem apenas um smartphone contornam as barreiras físicas e burocráticas dos bancos tradicionais inteiramente.
- Demografia mobile-first: A LATAM tem mais de 450 milhões de usuários de smartphones, com penetração de internet móvel excedendo 70% na maioria dos grandes mercados. A região pulou a era desktop e foi direto para mobile -- a mesma plataforma onde carteiras cripto vivem.
- População jovem: A idade mediana em toda a LATAM é aproximadamente 31 anos, comparada a 38 nos EUA e 44 na Europa. Populações mais jovens adotam nova tecnologia mais rapidamente e têm menos relacionamentos financeiros legados para proteger.
- Dependência de remessas: Centenas de bilhões de dólares fluem para a LATAM anualmente como remessas. Cada ponto percentual de redução em taxas de transferência representa bilhões em valor adicional alcançando famílias.
Estas não são condições temporárias. A inflação pode moderar, mas a instabilidade cambial é estrutural em várias economias LATAM. A população sem acesso a bancos não ganhará acesso bancário da noite para o dia. O comportamento mobile-first é permanente. Esses fatores significam que a adoção Web3 na LATAM não é um ciclo -- é uma tendência com uma pista muito longa.
Oportunidades Empresariais: Onde Está o Valor
A história de adoção do consumidor na LATAM está bem documentada. O que é menos discutido -- e onde vemos as oportunidades de curto prazo mais convincentes -- é a adoção empresarial. Empresas operando na LATAM enfrentam desafios específicos que a tecnologia blockchain pode abordar diretamente.
Transparência da Cadeia de Suprimentos
A LATAM é um grande exportador global de produtos agrícolas, minerais e energia. Cadeias de suprimentos nesses setores são notoriamente opacas, com lacunas de rastreabilidade que criam risco de conformidade para compradores internacionais e risco de reputação para produtores. Rastreamento de proveniência baseado em blockchain -- da fazenda ou mina ao porto de exportação -- fornece os registros verificáveis e à prova de adulteração que o comércio internacional cada vez mais exige. Regulamentações europeias de desmatamento (EUDR), regras de minerais de conflito dos EUA e requisitos de relatórios ESG estão todos criando demanda pull para essa infraestrutura.
Pagamentos B2B Transfronteiriços
Liquidar uma fatura transfronteiriça entre um fornecedor colombiano e um comprador brasileiro através do sistema bancário tradicional leva 3-5 dias, custa 2-4% em taxas e spreads de FX, e envolve múltiplos bancos intermediários. Plataformas de pagamento B2B baseadas em stablecoins reduzem isso para horas e pontos base. Para empresas operando em múltiplos mercados LATAM, as economias cumulativas são substanciais. Estamos vendo adoção empresarial inicial acelerar à medida que CFOs reconhecem o impacto no capital de giro e fluxo de caixa.
Inclusão Financeira em Escala
Esta é a oportunidade mais próxima de nossa experiência na Xcapit. Nossa parceria com a UNICEF focou em implementar ferramentas financeiras baseadas em blockchain para populações com acesso bancário limitado ou inexistente. O que aprendemos é que inclusão financeira não é apenas um bem social -- é uma enorme oportunidade comercial. Empresas que construírem os trilhos para os próximos 200 milhões de adultos LATAM acessarem serviços financeiros capturarão enorme valor. As ferramentas existem: carteiras de autocustódia, on/off ramps de stablecoins, protocolos de empréstimo DeFi e verificação de identidade que funciona com IDs governamentais em vez de histórico bancário. O que é necessário é a integração, experiência do usuário e parcerias para implementar em escala.
O Cenário Regulatório: Progresso, Não Perfeição
Frameworks regulatórios em toda a LATAM estão evoluindo rapidamente, embora de forma desigual. Brasil lidera com legislação abrangente (Lei 14.478) e a iniciativa CBDC Drex. O experimento de moeda legal Bitcoin de El Salvador continua a gerar debate. Argentina está desenvolvendo regulamentação específica de tokens sob a nova administração. Colômbia mantém sua abordagem sandbox. A Lei FinTech do México fornece estrutura, mas limita certas atividades cripto.
A trajetória geral é em direção à regulamentação, não à proibição. Isso é crítico para a adoção empresarial: empresas precisam de certeza legal antes de comprometer recursos. O que aconselhamos nossos clientes é construir com conformidade regulatória em mente desde o primeiro dia, mesmo em mercados onde as regras ainda não estão finalizadas. O custo de retrofitar conformidade é sempre maior do que construí-la, e a direção regulatória em toda a LATAM é clara -- frameworks estão chegando, e geralmente seguirão os padrões estabelecidos pelo Brasil e pela regulamentação MiCA da UE.
O Que Vem a Seguir: 2024 e Além
Vários desenvolvimentos moldarão a trajetória Web3 da LATAM nos próximos 12-24 meses. A adoção institucional está se acelerando à medida que bancos tradicionais no Brasil e Argentina começam a oferecer produtos cripto a bases de clientes existentes. Pilotos governamentais -- Drex no Brasil, projetos de identidade digital na Argentina e Colômbia -- estão criando demanda do setor público por infraestrutura blockchain. A convergência de IA e blockchain está abrindo novas possibilidades para conformidade automatizada e detecção de fraude.
A mudança mais significativa, no entanto, é atitudinal. Há cinco anos, conversas empresariais sérias sobre blockchain na LATAM exigiam superar profundo ceticismo. Hoje, a questão mudou de "por que blockchain?" para "como implementamos?" Essa transição -- do ceticismo ao planejamento estratégico -- é o sinal mais claro de que o mercado amadureceu.
Na Xcapit, passamos anos construindo para este mercado. Nossa carteira alcançou mais de 4 milhões de usuários. Nossa parceria com a UNICEF provou que o blockchain pode entregar serviços financeiros às populações mais mal atendidas. Nosso trabalho com empresas de energia, agências governamentais e instituições financeiras nos ensinou que a tecnologia funciona -- o desafio está sempre na implementação: navegação regulatória, experiência do usuário, integração com sistemas existentes e alinhamento de stakeholders.
A oportunidade na LATAM não é sobre o próximo bull market ou o próximo lançamento de token. É sobre construir a infraestrutura financeira e comercial que 650 milhões de pessoas precisam -- infraestrutura que é mais acessível, mais transparente e mais resiliente do que o que existe hoje. Se sua organização está explorando oportunidades Web3 na América Latina -- seja em pagamentos, serviços financeiros, cadeia de suprimentos ou tokenização -- trazemos a profundidade técnica e a experiência regional para transformar estratégia em sistemas de produção. Vamos conversar.
José Trajtenberg
CEO & Co-Fundador
Advogado e empreendedor em negócios internacionais com mais de 15 anos de experiência. Palestrante destacado e líder estratégico impulsionando empresas de tecnologia para impacto global.
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