
E se você pudesse enviar dinheiro para alguém que não tem internet, nem smartphone e nem conta bancária -- e essa pessoa pudesse gastá-lo em um mercado local em segundos? Essa foi a pergunta que nos propusemos a responder quando construímos nossa carteira blockchain via SMS e a levamos para Cusco, Peru, para um piloto real em agosto de 2024.
O Problema: Distribuição de Ajuda em Áreas Desconectadas
Globalmente, US$ 54,9 bilhões em ajuda humanitária foram distribuídos somente em 2023. No entanto, uma parcela significativa dessa ajuda nunca chega às pessoas que mais precisam -- aquelas que vivem em áreas sem infraestrutura bancária, internet instável ou acesso limitado a smartphones. Cada redução de 1% nos custos de distribuição economiza US$ 55 milhões. A questão não é se a tecnologia pode ajudar -- é se ela pode funcionar onde a infraestrutura não existe.
Nossa Solução: Uma Carteira Inteligente para Celulares Básicos
Construímos uma carteira digital baseada em blockchain que opera inteiramente via SMS. Usando abstração de conta na rede Polygon, criamos um sistema onde os usuários podem realizar todas as operações da carteira -- desde a criação da conta até transferências entre pessoas -- enviando e recebendo mensagens de texto. Sem download de aplicativo. Sem conexão com a internet. Sem necessidade de conhecimento sobre criptomoedas.

O Que os Usuários Podem Fazer
- Criar uma carteira inteligente instantaneamente enviando um SMS
- Verificar seu saldo via mensagem de texto
- Enviar e receber stablecoins (USDT/USDC) entre pessoas
- Fazer compras em lojas físicas usando uma senha de uso único (OTP)
- Visualizar seu histórico de transações e endereço da conta
- Atualizar seu número de telefone se necessário
O Que as Organizações Podem Fazer
- Criar carteiras em massa usando apenas os números de telefone dos beneficiários
- Distribuir fundos com rastreabilidade total on-chain
- Monitorar cada transação através de um explorador de blocos
- Reduzir custos operacionais em comparação com a distribuição tradicional de dinheiro
Como Funciona uma Transação
O fluxo de pagamento foi projetado para ser intuitivo tanto para compradores quanto para vendedores, mesmo que nenhum deles tenha interagido com tecnologia blockchain antes.
- Passo 1: O cliente recebe um SMS confirmando que sua carteira digital foi criada -- sem aplicativo ou internet necessários.
- Passo 2: No ponto de venda, o vendedor insere o número de telefone do cliente, o valor da compra e os detalhes do pedido em uma plataforma web simples.
- Passo 3: O cliente recebe um SMS com uma senha de uso único (OTP) e os detalhes da transação.
- Passo 4: O vendedor insere o OTP na plataforma para verificar e concluir a transação.
- Passo 5: O cliente recebe um SMS final confirmando a compra, incluindo o hash da transação on-chain.
Para transferências entre pessoas, o processo é ainda mais simples: o remetente envia por mensagem o valor e o endereço do destinatário, e ambas as partes recebem um SMS com o hash da transação. Tudo seguro, tudo on-chain, tudo sem internet.
O Piloto em Cusco: Usuários Reais, Transações Reais
Em agosto de 2024, viajamos para Cusco, Peru, para testar a carteira com usuários reais em condições reais. Escolhemos Cusco porque representa um ambiente realista para distribuição de ajuda humanitária -- uma região onde muitas pessoas dependem de celulares básicos, a conectividade com a internet é inconsistente e os serviços bancários tradicionais são limitados nas áreas rurais.

Principais Resultados
- 100% de taxa de sucesso em todas as transações -- cada transferência e compra foi concluída sem erros.
- Os fundos foram distribuídos com sucesso para indivíduos sem conta bancária, sem smartphones ou acesso à internet, em apenas segundos.
- Os usuários fizeram compras na Plaza de Armas em Cusco e em mercados locais -- comprando frutas, doces, chocolates, água e lanches.
- A menor transação foi de apenas US$ 0,10, provando que o sistema funciona para micropagamentos.
- 10 compras reais foram realizadas, totalizando US$ 18,25 em USDT e USDC.
- Suporte ao idioma nativo foi incluído, com mensagens da carteira entregues em quéchua -- cumprimentando os usuários com 'Hola, Allinllachu!' ao criar a carteira.

Custos de Transação
Uma das métricas mais importantes para qualquer sistema de distribuição de ajuda é a eficiência de custos. Nosso piloto demonstrou custos de transação extremamente baixos:
- Taxas de gás da blockchain: US$ 0,01 em média por operação (19 operações, US$ 0,15 no total na Polygon).
- Custos de SMS via Twilio: US$ 0,13 por mensagem enviada para o Peru, US$ 0,0079 por mensagem recebida.
- Custo total por compra (gás + SMS): aproximadamente US$ 0,27 -- uma fração das taxas tradicionais de remessa.
Por Que Isso Importa
O piloto em Cusco provou algo que muitos no espaço blockchain teorizaram, mas poucos demonstraram na prática: a tecnologia blockchain pode servir às populações mais carentes, não apesar da falta de tecnologia, mas encontrando-as exatamente onde estão -- com um celular básico e uma mensagem de texto.
Para organizações humanitárias, isso significa que os fundos podem ser distribuídos com total transparência e rastreabilidade a uma fração do custo dos métodos tradicionais. Para os usuários finais, significa acesso a uma carteira digital sem as barreiras de smartphones, conectividade com a internet ou alfabetização tecnológica.
A Tecnologia Por Trás
Nos bastidores, a carteira utiliza abstração de conta na blockchain Polygon, permitindo criar e gerenciar carteiras de smart contracts vinculadas a números de telefone em vez de chaves privadas. O Twilio gerencia a comunicação via SMS, e uma plataforma para comerciantes permite que os vendedores processem pagamentos através de uma interface web simples. Cada transação é verificável on-chain através do Polygonscan, proporcionando auditabilidade completa.

Próximos Passos
O piloto em Cusco foi uma prova de conceito, mas as implicações vão muito além de uma única cidade. Estamos trabalhando para levar essa tecnologia a programas de ajuda humanitária, iniciativas de inclusão financeira e cenários de resposta a crises onde a infraestrutura tradicional falhou. Se sua organização trabalha com distribuição de ajuda, acesso financeiro ou inclusão digital para comunidades carentes, adoraríamos explorar como essa tecnologia pode ajudar.
Antonella Perrone
COO
Anteriormente na Deloitte, com formação em finanças corporativas e negócios globais. Líder no aproveitamento de blockchain para o bem social, palestrante destaque na UNGA78, SXSW 2024 e Republic.
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